31.5.08

Ô semaninha...

Se por um acaso do destino você sobrevoasse minha escola
nesses últimos dias em certos momentos, certamente pensaria
que era uma rebelião de presídio, até menino no telhado tinha.
Os acessos ao telhado são todos fechados com tela de aço e
mesmo assim eles conseguem destruir.
Um funcionário arriscou a vida tentando resgata-lo.
O estagiário da secretária bem calmo, um doce, o menino do
telhado de 8 anos, encheu de pancadas, murros e chutes.
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São tapas em professores, gritos, palavrões, cadeiras ao alto
em ameaça...
É o dia-a-dia.
A escola atende em horário integral, apenas o Ensino Fundamental I,
até a 4ª série, a idade máxima é 14 anos.
Ontem foi o 1º conselho de ciclo, as dificuldades de aprendizagem,
inúmeras por sinal, são das crianças mais problemáticas, é óbvio.
Elas são a maioria.
Tenho um aluno fora de faixa que chegou faz dois meses, enviado pelo
conselho tutelar, foi ‘convidado’ a sair da escola onde estava; a mãe
quando veio matricular, se referiu a ele como delinquente e que por
ele ser assim o conselho tutelar ‘toma conta’. Uma colega ao ouvir
o relato me disse: - Pat, esse menino vai pra tu.
E foi.
A primeira semana foi ótima.
Apenas.
A primeira coisa que fez foi revidar com uma voadora (golpe com os
dois pés ao mesmo tempo) no estômago de outro aluno,um esbarrão.
Pedi a presença da mãe e quando ela veio depois que ouviu o relato
me respondeu:- Foi para isso que me chamou professora?
Esse menino agredido estava sendo ameaçado constantemente no
intervalo, o pai veio saber e foi assim que descobrimos, pois o agredido
estava com medo de dizer a alguém da escola, o pai chegou descontrolado
chorava com ira.
Acionaram o conselho tutelar, eles sacaram dos bolsos o ECA-Estatuto
Da Criança e do Adolescente- mostrando que, ele tem todo direito de
permanecer na escola, é assegurado por lei...
E meus 31 alunos restantes?
As coisas erradas continuam acontecendo, afinal é lei.
A família faliu.
Quem paga o pato?
A escola.
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Passo e certamente meus companheiros de trabalho também, a maior
parte do tempo das aulas tentando disciplinar. Quando consigo ministrar
uma aula completa, é um momento de êxtase onde me sinto realmente
exercendo meu papel.
!!!! Eu tenho que chamar responsáveis para fazer o que se negam,
serem realmente ativos, são chamados para eliminarem de seus filhos
piolhos, cáries, sarnas, impigens, roupas necessitadas de costura e
principalmente darem EDUCAÇÃO.
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Uma colega de trabalho se aposentou essa semana após 26 anos de trabalho,
com ela continuarão seus remédios tranquilizantes e para os problemas
do coração, uma amiga por problemas vocais sairá de licença por um mês,
recusou-se a uma readaptação de quatro meses.
E o que sai no noticiário? Números que comprovam a ‘incompetência’ dos
professores.

Teorizem, sentem as suas bundas nas cadeiras, longe da sala de aula
e apliquem estudos de renomeados.
É o que vem sendo feito.
Saímos do regime seriado e entramos no regime de ciclos.
O que mudou?
NADA.
É fácil criticar e achar culpados.
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Essa semana trabalhei a música Aquarela do Brasil de Ary Barroso, foi
visto o ritmo, a importância da valorização cultural entre outras coisas,
percebi que duas alunas que são irmãs, não estavam participando, a mais
velha me disse que era evangélica e era proibido, pensei que por causa do
verso ’ Terra de Nosso Senhor...’ Deixei para me inteirar depois, pois estavam
empolgados, só que a mais nova ficou tapando os ouvidos, aí não me contive,
baixei o volume e perguntei – Fulana, nunca vi em momento algum você
tapando os ouvidos e olhos quando suas amiguinhas dançam o créu,
sinceramente não estou entendendo, queira me explicar.
Não obtive respostas.
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NÃO TENHO RESPOSTAS.


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